
Os princípios educacionais que enquadram o novo programa, assim como a ênfase que é dada ao conjunto das capacidades transversais que o atravessam, vão implicar da parte do professor de Matemática um desafio. Provavelmente implica que centre mais o seu ensino no trabalho dos alunos. Como?
Por exemplo, através de uma diversidade de tarefas significativas e dando às crianças oportunidade para explicitarem o modo como pensaram e resolveram. Quando um aluno não consegue resolver uma dada tarefa, em vez de se passar de imediato à explicação da sua resolução, sugere-se que se questione o aluno, de modo a fazê-lo pensar sobre aspectos que o professor considera importantes. Muitas vezes esta atitude faz com que a criança pense em novos caminhos e consiga encontrar uma resolução. Pode ser considerada uma forma de o obrigar a pensar, a relacionar (as relações são fundamentais em Matemática) e a comunicar quando tenta encontrar uma resposta à pergunta do professor.
Outro aspecto que nos parece fulcral é incidir mais nos conceitos e ideias matemáticas do que nos símbolos, muitas vezes desprovidos de significado para os alunos. A ligação entre os símbolos e as ideias parece-nos a nós tão simples, mas para a criança que pela primeira vez se depara com um novo símbolo pode ser complicado e não é imediato que o relacione com a ideia subjacente. Por exemplo, a fracção ¾ é interpretada como os números 3 e 4 com um «risquinho» no meio.
Outro aspecto fundamental é a estimação e o cálculo mental, porque ajudam ao desenvolvimento do sentido do número.
A avaliação é ainda outro aspecto em que o programa, dando-lhe uma dimensão não exclusivamente classificativa mas também formativa, faz incidir as práticas do professor, uma vez mais, na procura do envolvimento dos alunos na resolução de problemas, incentivando a comunicação tanto oral como escrita.
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Concordo plenamente com o artigo. No entanto, as mudanças não passam só por metodologias do professor. São necessárias muitas outras mudanças, nomeadamente culturais, na imagem que a escola e os saberes académicos representam para a sociedade; sociais, no reconhecimento do papel importante do professor e o respeito que este merece; mudanças estruturais, pelo n.º elevado de alunos, com personalidades, formações e ambientes familiares tão diferentes, pela falta de articulação entre os professores de Matemática que leccionam o mesmo ano de escolaridade na mesma escola, pois não têm momentos no seu horário para reunir, planificar e aferir critérios e metodologias, pela falta de articulação entre os professores dos vários ciclos e das várias disciplinas, enfim, esta enumeração nunca mais acabaria.
Em relação à avaliação, concordo que se diversifiquem os instrumentos e os momentos de avaliação. No entanto, questiono a forma como o ME faz as suas "avaliações", que se limitam a tratamentos estatísticos, sobre um momento único de avaliação dos alunos (Provas de Aferição) antes do ano lectivo acabar, implicando que alguns conteúdos ainda não tenham sido abordados. Afinal, a avaliação do ensino resume-se a esses momentos, que não atendem às condições precárias em que certas escolas funcionam, nem aos meios socialmente desfavorecidos em que se encontram. Então, como é que os professores devem avaliar em diferentes momentos, com diversos instrumentos, atendendo aos diversos ritmos de aprendizagem dos alunos, como tanto se ouve falar? Parece-me contraditório.