NOVO PROGRAMA: CONTINUIDADE OU RUPTURA?
Em discussão até 2009-09-27  |  Adicionar Comentário



A relação entre o novo programa e o de 1991 é, sem dúvida, de continuidade e de aprofundamento. Às cinco competências do de 1991 correspondem agora outras tantas; para a necessidade de se tratarem as competências de um modo integrado alertam ambos. O novo programa aprofunda o anterior no apontar de percursos didácticos que tornem a aprendizagem, portanto as aulas, mais activas e motivadoras para os alunos.

 

O novo programa de Português aponta para uma aula activa, na qual se trabalhem de modo articulado as diferentes competências, uma aula na qual se ensine a ler e não se avalie somente a competência de compreensão de leitura; uma aula na qual se ensine a escrever e não se exija somente a escrita; uma aula que tenha tempos para momentos formais de oralidade e que não se fique pelo oral lúdico e não planificado; uma aula, enfim, na qual o conhecimento explícito da língua esteja significativamente ao serviço do desenvolvimento das outras competências e não seja leccionado de um modo estanque: «-Já dei as conjunções causais!». Posso dormir descansada/o…

Para que este tipo de aula e esta mentalidade mudem, muito pode contribuir o manual escolar.

O que deve ser o novo manual de Português?

É um segredo por todo conhecido que a generalidade dos professores de Português conhece mal os programas. O novo programa de Português a essa realidade se refere quando lembra que «os manuais não devem sobrepor-se aos programas, como com alguma frequência se verifica» (p. 9).

Um manual escolar de Português deve ser construído de raiz sobre um novo programa e não adaptado do manual anterior, situação que por vezes acontece.

Um manual escolar de Português deve ser um auxiliar pedagógico do programa, um entre outros. Mas a escola portuguesa é avessa a considerá-lo desse modo, antes o entendendo, tantas vezes, como o próprio programa!

De qualquer modo, um manual escolar de Português construído com base no novo programa deveria ter um carácter muito prático, com baterias de exercícios numerosas, que permitam aos alunos trabalhar e aprender na sala de aula, já que fora dela não o fazem, por regra; deveria trabalhar as diferentes competências de um modo integrado e não estanque, como com frequência se constata; deveria apresentar uma grande variedade de tipologias textuais, como o programa preceitua, e não centrar-se quase só no texto narrativo, com nefastas consequências para o desenvolvimento da competência de compreensão de leitura; deveria apresentar o estudo do conhecimento explícito da língua ligado intimamente ao das outras competências, de modo a que a gramática apareça com um carácter funcional, isto é, de modo a que os alunos vejam que saber gramática os pode ajudar a compreender melhor o que ouvem, a expressar-se tanto oralmente como por escrito com mais correcção, a compreender efectivamente o que lêem.

Finalmente, um manual escolar de Português deveria dar especial atenção à diferenciação pedagógica.

Se for tudo isto, um manual escolar de Português vai por certo fazer crescer também os docentes como profissionais.

A propósito dos assuntos abordados, associamos a este post o actual Programa de Língua Portuguesa do 3.º ciclo e três referências bibliográficas. Disponibilizamos estes mesmos documentos na área «Recursos de Apoio»!

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A Equipa

Comentários (14)
(Comentário mais recente)
O nosso comentário é, antes de mais, um elogio sincero à equipa de autores. Pela ousadia, pela inovação de "partilhar" o trabalho com a comunidade de professores de Português. Como o novo Programa pressupõe muitas actividades oficinais para trabalhar as diversas competências, o professor precisa de "ferramentas" para as realizar. Este manual apresenta-se como um recurso muito rico (...) [Comentário completo]
Acho exagerado os alunos serem expulsos por não fazerem 3 tpc, como julgo que também o acharão; é lógico que o difícil é motivá-los para os fazer. Poderíamos substituir alguns por trabalhos de projecto e também pedir que realizem tpc curtos, mas abrangentes do mais importante. Sugiro a inclusão de tpc deste tipo e sugestões de trabalhos de projecto no novo manual. Se lá fora fazem (...) [Comentário completo]
Caro José Carlos, como professora de Português sei que ensino os alunos a ler... A compreender o que lêem. Há uma didáctica da compreensão de leitura. Não vou dar exemplos. Quanto à expulsão dos alunos se não fazem os TPC 3 x: brevemente teríamos as escolas vazias :)
Cara Isabel, não sei bem a que 9 horas se refere, mas sempre lhe digo: faça o melhor que puder nessas 9 horas. Concordará que outrém fará o mesmo em 15, ou menos em 16, ou mais em 6. Não será fácil definir esse número de horas. Para além delas, interessam as práticas colaborativas, não esquecer isto é muito importante.
As características enumeradas para o novo manual de Português são pertinentes, embora me pareça óbvio que este deva ser criado de raiz e não deva sobrepor-se ao próprio programa, mas antes funcionar como mais uma ferramenta de trabalho disponível para o professor. Acho, mesmo, que devemos começar por aí: pelo novo programa - quantos professores de Português o conhecem, efectivamente (...) [Comentário completo]
Um dos pressupostos preconizados pelo Novo Programa é a valorização deste, independentemente dos recursos didácticos utilizados pelo professor. Entre estes, inclui-se o manual escolar. Este último não deve, jamais, sobrepôr-se ao Programa, propriamente dito. As expectativas face ao novo manual incidem sobre a flexibilidade que este poderá oferecer ao aluno, no âmbito do desenvolvime (...) [Comentário completo]
A actual revisão programática prevê, e muito bem, a manutenção de conteúdos programáticos que não devem ser ignorados, não obstante a óbvia reestruturação que o Novo Programa apresenta. O que, de facto, parece mudar são as abordagens a esses conteúdos, as quais se justificam pela sua adequação à realidade actual e às necessidades manifestadas.
Concordo com o que é proposto, só pergunto, será que as horas de trabalho individual dos professores de português são suficientes para a concretização de tudo que nos é pedido? As leituras, a pesquisa, a selecção e preparação de tantos materiais e tão diversificados pode ser realizada em 9 horas de trabalho semanal? Gostaria de saber a vossa opinião.
Acho a vossa proposta muito interessante. A selecção de textos de natureza diversificada é, certamente, uma mais-valia. Contudo, considero que este novo conceito de manual deva incluir uma selecção de textos completos, nomeadamente aqueles que são propostos para leitura integral obrigatória, dado que se torna quase impossível impor à generalidade dos alunos (oriundos de meios socioe (...) [Comentário completo]
Os manuais de LP devem incluir material de trabalho que envolva uma maior participação e autonomia dos alunos. Já não basta escolher textos e fazer questionários. É necessário prever o uso de textos actuais dos media e da literatura mais recente. Seria interessante criar uma base de dados interactiva com fichas de compreensão oral, compreensão escrita que se pudessem relacionar com (...) [Comentário completo]
Uma observação cuidada dos manuais revela, de facto, que os seus autores parecem desconhecer os programas. Esse desconhecimento parece, infelizmente, alargar-se a alguns professores, para os quais o manual é um guia, que deve ser seguido religiosamente. Essa necessidade parece advir dessa crença de que o manual respeita as indicações dos programas, o que nem sempre acontece. Infeliz (...) [Comentário completo]
Aplaudo, mas não será tarefa fácil...
Críticas | Enviado Por: José Carlos
Vou comentar frases do texto: "uma aula na qual se ensine a ler" - discordo. Não se ensina a ler. O aluno lê. Ponto Final. Ele APRENDE a ler por si próprio, não é coisa que se ensine. Nós podemos dar a nossa leitura mas o que importa é o que ele descobre. Muito do mal do ensino da leitura até hoje, é o facto de querermos "ensinar" a ler. Tomemos como exemplo a linguagem. Nenhuma mãe (...) [Comentário completo]
O novo programa necessita, tal como o post afirma, de manuais que ajudem à mudança. Já é tempo de os manuais contribuirem para a melhoria das competências linguísticas e outras dos nossos alunos. Por tradição, e o texto do novo programa a isso alude, os manuais tendem a sobrepor-se ao programa, o que parece não acontecerá com este projecto. Também se deseja que desta vez os professo (...) [Comentário completo]